domingo, 18 de setembro de 2016

Aquarius: entre o boicote e a arte

A campainha toca, era o neto de Clara que vinha passar o dia com ela. Clara põe uma máscara de cavalo, dessas enormes que chegam a nos pesar a cabeça. Imaginamos o riso contido por debaixo da fantasia, esperamos um sorriso de criança diante da travessura. Mas a filha de Clara, a mãe do menino, passa reto sem notar a fantasia, enquanto se queixa do dia e dá instruções com o filho no colo. Como se a mãe tivesse desde sempre cara de cavalo. Ou de mulher. Tanto faz. Clara, um tanto quanto sem graça, tira a máscara e escuta, obediente, o que devia ser feito.
            Uma semana após ter assistido Aquarius, o filme ainda ecoa, me pesando as ideias feito a máscara de cavalo na cabeça de Clara. E essa cena em específico volta e volta e volta. Uma cena de poucos segundos, que logo é substituída por outra, uma cena assim, pequena e de pouca importância. Mas esses poucos segundos me resumem o filme todo. Me resumem tanto da vida! Não um resumo assim, desses que perdem os detalhes enquanto preservam a Ideia principal, com I maiúsculo e toda cheia de importância. Não. Estou falando de um resumo enquanto potência, um resumo do pequeno, da poesia em estado de semente.
A filha de Clara não conseguia ver poesia em seus dias. Sua vida era sua rotina, sua rotina era sua logística. Babá, carro, trabalho, filho. E um brilho murcho escorrendo dos olhos. Se a vida de Clara podia ser escrita numa música e gravada num vinil, ou num moleskine e impressa num livro, a da filha era esquematizada numa planilha de excel e exposta num programa de power point.
            Na vida que corre cá solta, não somos nem só a Clara nem só a filha (desculpem-me o ato falho, mas não consigo lembrar seu nome). De verdade, nem a Clara é só Clara ou a filha é só a filha. Somos todos uma luta constante, um jogo de forças entre um e outro. Controlamos os ponteiros, fatiamos os dias em tarefas, linhas e colunas, mas aí – sempre tem um “mas aí” – a vida chega e nos presenteia com uma máscara de cavalo, uma cicatriz no peito, uma gargalhada amontoada de gente. Podemos enrijecer e fazer de conta que nada vemos, ou podemos nos entregar às desimportâncias. De um lado o boicote, do outro a arte. A escolha é nossa, embora não seja nem fácil nem evidente. Embora exija um esforço. Clara que o diga.

            Durante todo o filme, a protagonista era convocada uma vez e mais outra e mais outra a reafirmar a sua escolha. A escolher novamente. Entre o mp3 e o vinil, o silicone e a cicatriz no peito, o aquarius e o Novo Aquarius. Como se tivesse algo errado em optar pela história,  como se a louca fosse ela. Mas ela escolhia, contra todos, a favor da vida. Ela escolhia a poesia. 


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O lixo de Copacabana (Bolívia)

Por que o lixo incomoda tanto? Garrafas pet e embalagens empoeiradas me fazem desviar o olhar. Se eu não olhar, não existe. Tento e tento, cheia de um esforço desperdiçado. O lixo esperneia ainda mais quando não olho. Espelho do que carrego por dentro.
Camisinhas espalhadas no chão pinicam o lixo que levo em mim. Viajar não é só pôr do sol, compras e vinho. É encontrar-se inteira. Rebelião de pelos, cutículas espetando a pele, sobrancelhas desenhando novos caminhos, meia úmida virada pelo avesso. E um vago assombro dos fantasmas que deixei em casa.
Pesadelos e excrementos se misturam a paisagens cheirando a brinquedo novo. Viajar é melar o rosto de espanto e de banho velho.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Desabafo

Quando escutei o primeiro “Queria mandar um beijo pra minha neta Ana que faz aniversário hoje”, confesso que gargalhei. Tipo aquela risada nervosa de vergonha alheia, sabe? Mas, voto após voto, o absurdo se repetia: era beijo pra neto, pra eleitor, pra filha, pra papagaio. Minha risada nervosa foi murchando e, de boca que esquece de fechar, assisti bizarrice atrás de bizarrice. Se fosse só assim, feito espetáculo de circo, até que tudo bem: seria meu programa de domingo à noite. O problema é que não era só um espetáculo (embora tivesse até quem jogasse confetes): era o futuro do nosso país, era quem nos governa, é o retrato do brasileiro.
Sim, do brasileiro. Afinal de contas, os deputados que mandavam beijo pros amigos e familiares, como se estivessem num show da Xuxa, não vieram da Dinamarca nem da Suécia. Eles são os mesmos que assistem ao Jornal Nacional e se dizem informados, que postam memes preconceituosos no facebook, que passam corrente sobre política no whatsapp jurando que é tudo verdade como se viesse do Além.
E é esse brasileiro - motorista de taxi, médico, engenheiro ou deputado – que não lê, que não estuda, que não lembra. Que só de escutar falar, já passa adiante. Que não sabe direito o que é política nem democracia, mas que acha bonito falar essas palavras grandes, principalmente quando já vêm em frases prontas.
Foi esse brasileiro que nos representou ontem, no show de bizarrices que me fez acordar ressaqueada. Um brasileiro que não tem a menor noção do que é público e do que é privado. Que se aproveita de um espaço e de um momento tão delicado em prol de interesses pessoais - como fazer propaganda eleitoral, fazer bonito com a igreja, mandar um beijo pra não sei quem.
Curiosamente, dos pouquíssimos que deram argumentos contundentes, quase todos eram contrários ao impedimento de Dilma. O que prova que das duas uma: ou quem votou a favor não fez direito o dever de casa de saber porque votava a favor; ou não existe mesmo motivo contundente que justifique o crime de responsabilidade e, portanto, o impeachment.
Se as falas não pareciam muito bem preparadas, o mesmo não se pode dizer das vestimentas: todo mundo de verde e amarelo, como mandava o figurino e a comemoração de depois. Já dizia, porém, um professor meu da época de faculdade: “Quando vocês verem muita gente com bandeira de país, se não for Copa ou Olimpíadas, desconfie”. É que, quando a gente defende demais uma instituição – um país, uma igreja, uma cidade, um jeito certo de família ser, um jeito certo de se relacionar -, automaticamente se exclui tudo o que não pertence a essa instituição. E então surge a xenofobia (os médicos cubanos que o digam), a intolerância religiosa, a homofobia, o racismo, o machismo etc. O fascismo vem daí, nadando entre fanatismos e preconceitos.
Pensando bem, não acordei ressaqueada por conta da decisão favorável ao impeachment de ontem. Agora vejo: o que me enojou foi ver tão de cara, tão cru e sem maquiagem, o retrato do brasileiro que se desenha hoje. Porém, mais do que tirar o Bolsonaro, Cunha ou Temer do poder (afinal de contas, que nem eles têm milhares de outros doidos pra chegar lá), o que me interessa pensar é: o que estamos fazendo (ou deixando de fazer) para que esse tipo de pensamento se propague e ganhe força? Em que tipo de fascismo entramos para que as nossas vontades sejam as mesmas de defensores da tortura e de oportunistas baratos?
Desculpem-me a falta de otimismo – juro que não sou assim todo dia. É que hoje acordei de ressaca e precisava pôr pra fora. Pronto, já me sinto melhor.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

30

Apressada, minha crise dos 30 se insinuou aos 28, junto com os primeiros fios brancos e uma receita de creminho antirrugas. “Sua pele é muito fina”, decretou sem cerimônias a dermatologista, “temos que cuidar desse pé de galinha”. Cheguei no consultório falando de espinhas; saí com um prognóstico fatal na pele e amostras de colágeno na bolsa.
A receita trouxe consigo uma séria questão: comprar o creminho seria um caminho sem volta. Creminho, aliás, era eufemismo: importado, custava uma pequena fortuna. Somei, mentalmente, o valor de todos os creminhos que compraria a partir de então, travando uma batalha que, mais cedo ou mais tarde, sairia perdedora. Triunfante, escondi a receita numa pasta: não iniciar a luta era, de alguma forma, sair ganhando.
Ainda não cedi ao creminho – nem à tinta nos cabelos. É um tanto estranho, mas admito: os fios brancos me trazem certo prazer. Reluzindo histórias pra contar, cada fio traz à tona uma época vivida: entrada na faculdade, primeiro amor, saída de casa, primeiro emprego. Rebobino os 20 como quem lembra uma viagem - única porque minha. Ao invés de catar moedas e comprar creminhos, meus pés de galinha olharam as estrelas: quais viagens me esperam nessa fase que se inicia?
Mas as rugas e os fios alvos foram só parte da crise. Visível e concreta, talvez por isso mais fácil de lidar. Sinto essa geração de mulheres se beneficiar do feminismo que pipoca hoje: nossos corpos começam a sair do domínio público, pra ganhar a esfera privada. Da máxima “homem de cabelo branco é charmoso; já mulher, é bruxa”, vejo despontar mais e mais grisalhas estilosas e donas de seus cabelos. Mas isso é papo pra outra história.
Já a outra parte da crise, como ia falando, foi bem mais insossa. Passei os 29 com gosto de boca mordida, ruminando os medos da década que batia à porta. Sabe aquela gaveta bagunçada, que você sempre deixa pra arrumar depois? Pois é, essa gaveta era os 30. Menina, imaginava-me uma trintona de salto alto, planejando o segundo filho e indo trabalhar numa nave dos Jetsons. Mas lá estava eu com 29: de allstar, dando duro pra alimentar dois gatos, e indo pra labuta cheia de dúvidas na cestinha da bicicleta.
Foi, porém, a menina de allstar, e não a mulher de salto, quem juntou forças e arrumou a gaveta. Joguei fora o que já não me servia, botei pra jogo o que tinha de mais precioso e, numa caixinha não muito grande, não muito pequena, guardei as dúvidas como quem guarda fotos e cartas – consciente de nelas haver um quê de poesia.
Hoje, já de gaveta arrumada, qual não foi minha alegria ao deparar-me comigo mesma. Dos 30, não veio a outra, com respostas na bolsa de marca e longos cabelos soltos. A mulher que surgiu fui eu própria, com algumas dúvidas na bicicleta e outras certezas no coque bagunçado.




segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Conversa com o autor

Recentemente, tive o prazer de participar, em conjunto com a Pepita Sampaio, do programa Conversa com o autor, que foi ao ar na rádio MEC AM. 

Idealizado a partir de um projeto da Casa da Leitura, da Fundação Biblioteca Nacional, o programa tem como mediadora a jornalista Katy Navarro, da Casa da Leitura.






Pros interessados, o link é esse:

http://radios.ebc.com.br/conversa-com-o-autor/edicao/2015-10/luisa-benevides-e-pepita-sampaio-no-conversa-com-o-autor

Espero que curtam o programa!

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Travessura das palavras

Há cerca de um ano, fui convidada a participar de uma antologia de contos sobre o Rio de Janeiro. A ideia era pinçar um fio de cabelo da nossa cidade – uma rua, uma personagem, um monumento. Em meio ao turbilhão carioca, sobre o que escrever? Numa espécie de ruminação à espreita, passei um tempo a farejar novos ares, pescar palavras sem dono.
Enfim, o estalo se deu. Ao entrar no meu prédio, esbarro com um velhinho de uniforme da seleção brasileira, meião, chuteira e bola debaixo do braço. Estatelada na portaria, revisito cenas empoeiradas: da onde conheço essa figura? Rebobino, rebobino, até que... Eureca! Era o velhinho do São Januário e do Maracanã de outros tempos, que passava o intervalo dos jogos entretendo a arquibancada com suas embaixadinhas pelo campo.
Consigo uma entrevista com ele. Papo vai, papo vem e o velhinho das embaixadinhas me mostra diplomas, reportagens, fotografias amareladas. Distraída que sou, me atenho pouco aos documentos - prefiro a travessura de suas palavras. Dentre tantas, uma não parou de ecoar – espécie de sopro a anunciar novos ventos. Era a palavra brincar.
O velhinho substituía o verbo jogar pelo brincar. Brincar de futebol, brincar de embaixadinha – era assim que ele falava. Essa pequena traquinagem me fez lembrar Manoel de Barros, poeta que ao invés de velhice, falava em terceira infância. Uma frase em especial martelou forte: “Tenho 87 anos. Se eu conseguir brincar de futebol até os 90, eu tô feliz”.
Na época, eu trabalhava como educadora infantil, e conheci algumas crianças que não sabiam brincar. Feito pássaro que não voa; cachorro que não late. No pátio, só conversavam com os adultos, sobre temas de gente grande. Das poucas vezes que arriscavam uma brincadeira, lembravam-me executivos de terno e gravata tentando passar por três porquinhos.
            O contraste gritou aos meus ouvidos. Gritou tanto até chegar às mãos, à ponta dos dedos, à página em branco. As palavras deram contorno a Pedrinho, um menino que pesava raízes. “Os membros eram sua língua estrangeira”, escrevi em algum ponto. Se como educadora me pesava os limites da realidade, no texto seria diferente. Eu precisava converter o menino em criança.
            Foi aí que a terceira infância adentrou a página – um bisavô com rugas de brincadeira e risadas de nuvem. Seria possível resistir a uma voz que, bem ao jeito do poeta, falava em língua de ave e de criança? Pra cada leitor, uma resposta. Eu, confesso, já tenho a minha. Afinal, criançar Pedrinho foi meu pequeno jeito de criançar o mundo.



Ps. O conto, intitulado “Rugas de brincadeira”, foi lançado na antologia “Mapas literários – o Rio em histórias”, organizado por Ninfa Parreiras e publicado pela Editora Rovelle.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A empadinha e o Coelho

No combate entre você e o mundo, prefira o mundo.
Franz Kafka

Já tem um tempo que faço parte de um grupo de estudos de literatura em Santa Teresa. Na primeira vez que fui lá, me explicaram como seria: “Lemos um trecho de um livro, mas antes dedicamos um tempinho pro ‘feito à mão’”. Não entendi o que seria aquilo, mas não quis perguntar. Preferi preservar o mistério daquela expressão um tanto quanto em desuso: “feito à mão”. Parecia até uma palavra só – palavra caseira com cheiro de bolo de fubá.
A nerd dentro de mim se preparou direitinho: comprou o livro, leu, sublinhou. Separou caderno, estojo e até marca-texto. Com cara de blazer, pegou um taxi na Lagoa. No engarrafamento das 18h, quase pôde ver o Coelho da Alice correndo entre os carros, de relógio nas mãos e sobrancelhas franzidas. Eu era o próprio Coelho. Ou talvez o relógio. Ou ainda as sobrancelhas. Que diferença faz?
Finalmente, o taxista pega o Túnel Rebouças e sobe o morro pelo Cosme Velho. Sem me dar conta, o Coelho desaparece. A sobrancelha franzida escorre pros lábios, desembocando num sorriso fresco que se perde no tempo. Como quem olha pra si numa foto antiga, contemplo, “de cima e benevolente, tudo que é novidade, modernidade e barulhidade que rolava nos baixos”[i].
Enfim, chego à casa: casa-vó com rugas de tempo e jardineiras floridas. Das janelas coloniais, vê-se Rio pra tudo que é lado, “exibindo mar e baía e montanha e cidade pra gente olhar”[ii].
Sento-me à mesa – daquelas enormes de madeira, de quem não tem pressa pra comer. Está na hora do “feito à mão”. Empadinhas de doce de leite, chá de amora, pães caseiros dos mais variados grãos, caponata de berinjela. Tudo tecido por mãos familiares e mastigado entre vozes femininas – vozes que falam de botões, de cadernos, de louças. Vozes que riem do tempo lá embaixo, como quem diz: “preciso de uma trégua de ti”.
Intrigo-me com as vozes – é um intrigar gostoso, de quem fecha os olhos e se deixa saborear por elas. Mas tem algo em minha garganta que me obstrui a voz, impedindo-a de se embolar com as demais. Olho pra dentro e descubro o intruso – o Coelho da Alice estava lá, empacado, me empacando.
“Ei, você!”, ele me chamou lá de dentro. “Cadê o estudo que não começa? Esse engarrafamento todo foi só pra jogar conversa fora?”
Ainda bem que a voz do Coelho era fraca – estava mais pra uma coceira do que pra um trombone. Assim que me dei conta pra onde aquela conversa me levaria, encarei seus olhos vermelhos a me fitarem no escuro da garganta, e disse cuspido:
“Senhor Coelho que não pode perder tempo, ‘que tem sempre de aproveitar o tempo, que não pode protelar qualquer coisa, que tem de seguir o passo veloz do que passa, que não pode ficar pra trás’[iii]. Senhor Coelho, você já não tem tempo dentro de mim”.
Ainda em tempo, fiz o Coelho calar a boca e ser digerido junto a uma bela dentada na empadinha de doce de leite.







[i] Este trecho é do livro “O Rio e eu”, de Lygia Bojunga, no qual a autora fala de seu amor à primeira vista – e à segunda, e à terceira – com Santa Teresa.
[ii] Idem.
[iii] Esta passagem é de um texto que fala sobre a experiência e dificuldade de experimentarmos qualquer coisa no mundo corrido contemporâneo. Chama-se “Notas sobre a experiência e o saber de experiência”, e é da autoria de Jorge Larrosa Bondía.